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“Estamos aqui para romper fronteiras, fronteiras Mineiras”

Black Sonora

Muito se ouve (ou quem sabe, ouvia) em conversas de buteco, papos furados, desabafos e frustrações de quem mora na capital mineira, que “nada acontece em Beagá”, ou que “essa cidade é uma roça” e até “no carnaval isso vira uma cidade fantasma”, etcétera…

Porém, despercebido pelos meios centrais de comunicação de massa e ainda do grande público, em todos os cantos da cidade borbulha um caldo rico em criatividade, qualidade, diversidade, engajamento e amabilidade, que vem tomando as ruas, a rede, os corações e os ouvidos da cidade de uma forma revigorada.

“Mobilidade pelo mundo, Amabilidade”

Graveola e o Lixo Polifônico

Somente aqueles que preferem manter os olhos e ouvidos fechados não sentem a maré de mudança que ecoa pela cidade.

Se a apenas 5 anos atrás se falou tanto em falta de publico e de espaços para trabalhos autorais, hoje já podemos dizer que novos lugares foram desbravados e que as formas de atuar artisticamente na, com e para a cidade se renovaram. E se foi possível fazer até o concreto virar mar na Praia da Estação, ou ainda, acordar o velho e adormecido Carnaval de rua da cidade, o desânimo sobre tudo o que faltava por aqui (e o mar cumpre então o papel irônico desse signo) inverteu-se num amor e um abraço no lugar em que se vive, surgindo daí belas e novas formas de cantar, rimar, tocar e viver em BH.

Mas há o anseio de se ir muito além do Horizonte. De romper enfim as fronteiras da “mineirisse” e do “comer quietinho”. É possível que esse abraço seja ainda maior.

“Não somos panela, nós somos é a cozinha inteira”

Familia de Rua

Utilizando o espaço público de forma criativa para driblar a falta de espaço e articulando-se guiados mais pelo afeto do que por estética simplesmente, os artistas da cidade fazem do seu cenário musical um dos mais interessantes do Brasil (que, vale dizer, se estende muito além desse recorte de 21 músicas).

Talvez por isso essa coletânea se apresente tão diversa e eclética; e o que tradicionalmente é reconhecido como “música mineira” se encontre aqui diluído, transformado e reinventado em diversas maneiras.

Da resistência da cultura soul e hip-hop belorizontina representada por Black Sonora, Renegado, Gurila Mangani, Familia de Rua, Julgamento e Zimun, a excelência instrumental de Constantina, Dibigode, Iconili e Thiago Delegado; passando pelo indie(o)-pop do Transmissor, DLTH e Câmera, ou pelo ska-punk de Fusile e Pequena Morte, chegando ao roque setenteiro de Thiakov e RAM.

Já a faixa bônus “Paz pros Camelôs” de MC Buru (que reúne um verdadeiro bonde de MCs), aponta para todo um univeso que vai muito além dos limites dessa “cena” e que expande ainda mais o conceito do que seria essa “mineiridade” sonora; e que infelizmente não está contemplado nessa coletânea devido ao limite de espaço físico que um disco de vinil proporciona.

Belo Horizonte é uma cidade muito jovem. Talvez por isso cultive esse gosto por se renovar de tempos em tempos. Em vezes em rupturas radicais, em vezes remexendo seu passado e, ludicamente, atualizando sua própria história. E talvez esses sejam gestos que marcam vários desses grupos, mas que podem ser mais claramente identificados nas collages de bandas como Graveola e o Lixo Polifônico, junto dos amigos de estrada e canção, Gustavito e Juliana Perdigão, essa última responsável por talvez um dos refrões mais sintéticos dessa geração, que, na canção de Renato Negrão, canta:

“Que bom, que bom, que bom ser contemporâneo seu!”

Forte agradecimento as bandas e artistas que gentilmente cederam suas obras e toparam participar desse apanhado em vinil; e a todos que contribuiram para que esseLong Play duplo tomasse formato. Este é um projeto antigo e de grande importância para a Vinyl Land Records em seu esforço de registrar a nova música brasileira em acetato e nos enche de orgulho e prazer de poder fazer parte deste contexto belorizontino atual.

Baixe o disco completo aqui.